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Sondagem SPT: o que é, como ler o boletim e por que sua obra precisa

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Sondagem SPT: o que é, como ler o boletim e por que sua obra precisa

Ninguém quer refazer fundação. Mas é exatamente o que acontece quando o galpão sobe em cima de um chute: pilar que recalca, piso que trinca, estaca dimensionada para um solo que não existe ali. Tudo isso começa antes da obra — na hora em que alguém decidiu pular a sondagem SPT para economizar uns trocados.

A sondagem é o ensaio mais barato da obra inteira e o que mais define o resto. Ela diz o que tem embaixo do terreno: que solo é, quão resistente é cada camada, onde está o lençol freático. Sem isso, qualquer projeto de fundação é palpite. Neste guia você vê o que é o ensaio SPT, como ele é feito, o que significa o NSPT, como ler o boletim de sondagem e como esse número escolhe o tipo de fundação do seu galpão.

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O que é a sondagem SPT

SPT é a sigla de Standard Penetration Test — ensaio de penetração padronizado. No Brasil é regido pela NBR 6484. É o método mais usado para investigar o subsolo: um furo é aberto no terreno e, de metro em metro, mede-se a resistência do solo à penetração de um amostrador padrão. Esse número de resistência é o NSPT.

Na prática, a sondagem responde três perguntas que o projeto de fundação precisa antes de qualquer cálculo: que solo é (areia, argila, silte), quão firme ele é em cada profundidade e onde está a água. Com isso o projetista decide se a fundação é rasa (sapata) ou profunda (estaca), e até onde precisa descer para encontrar apoio.

Como o ensaio é feito

Infografico do ensaio SPT: amostrador padrao, martelo de 65 kg caindo de 75 cm, contagem de golpes para cravar 30 cm, leitura do NSPT

O ensaio é simples e padronizado de propósito — é o que permite comparar terrenos no Brasil inteiro. O passo a passo:

  1. Perfuração — abre-se o furo com trado e, abaixo do nível d’água, por circulação de água. O furo desce de metro em metro.
  2. Cravação do amostrador — a cada metro desce o amostrador-padrão (amostrador Raymond, de 50,8 mm de diâmetro externo) preso à composição de hastes.
  3. Golpes do martelo — um peso de 65 kg cai em queda livre de 75 cm sobre a haste, cravando o amostrador no solo.
  4. Contagem em três trechos de 15 cm — conta-se quantos golpes para cravar cada 15 cm, num total de 45 cm.
  5. Cálculo do NSPT — despreza-se o primeiro trecho (assentamento) e soma-se os golpes dos dois últimos trechos de 15 cm. Esse total, para cravar os 30 cm finais, é o índice NSPT daquele metro.

Repete-se isso metro a metro até atingir o impenetrável — quando o solo fica tão resistente que o amostrador praticamente não desce (por norma, 50 golpes sem cravar os 30 cm, ou critérios equivalentes). Aí a sondagem encerra naquele furo.

O que o NSPT diz sobre o solo

O NSPT é um número de resistência à penetração. Quanto maior, mais firme o solo naquele ponto. Mas ele significa coisas diferentes conforme o tipo de solo: em areia ele indica a compacidade (fofa, medianamente compacta, compacta); em argila indica a consistência (mole, média, rija, dura). A tabela abaixo resume como ler o número e o que ele sugere de fundação:

NSPT (golpes/30 cm)Areia — compacidadeArgila — consistênciaIndicação de fundação
0 – 4FofaMuito mole / moleSolo ruim — fundação profunda; nunca sapata
5 – 8Pouco compactaMédiaEstaca; sapata só com carga muito leve e estudo
9 – 18Medianamente compactaRijaSapata viável p/ carga moderada; estaca p/ carga alta
19 – 40CompactaMuito rijaSapata firme; bom apoio para ponta de estaca
> 40Muito compactaDuraExcelente apoio — ponta de estaca / impenetrável

Atenção: a tabela é leitura de campo, não substitui projeto. Um NSPT alto não libera sapata automaticamente — depende da carga do pilar, da espessura da camada firme e do que vem abaixo dela. É justamente aí que o cálculo da estrutura entra.

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Como ler o boletim de sondagem

O resultado vem num documento chamado boletim ou perfil de sondagem — uma folha por furo. Parece carregado, mas se lê em poucos minutos. Leia de cima para baixo, na ordem:

  1. Cabeçalho — obra, número do furo (SP-01, SP-02…), data, cota de boca do furo (a referência de nível do terreno naquele ponto).
  2. Coluna de profundidade / cota — a escala vertical em metros. Tudo no boletim é lido em relação a ela.
  3. Perfil de camadas — a descrição do solo encontrado em cada trecho: "argila siltosa marrom", "areia fina cinza", etc., com a hachura (símbolo) de cada material e a profundidade onde uma camada vira a outra.
  4. Nível d’água (N.A.) — o símbolo de água marca onde o lençol freático foi encontrado. Define se você vai trabalhar no seco ou no molhado, e descarta certos tipos de estaca.
  5. Coluna de NSPT — o número de golpes de cada metro, em geral mostrado também como gráfico de barras. É a leitura mais importante: mostra onde o solo "endurece", ou seja, onde a fundação encontra apoio.
  6. Limite da sondagem — a profundidade final do furo e o motivo do encerramento (impenetrável ao trépano, ao SPT, ou profundidade contratada atingida).

O que você procura no boletim, na prática, é simples: onde o NSPT cresce e fica alto. Se ele só fica firme aos 8 metros, a sapata rasa está fora de cogitação e a estaca vai ter que descer até ali. Se já aos 2 metros o solo é compacto, a sapata resolve barato. O nível d’água e a sequência de camadas confirmam o resto.

Quantos furos pedir e até que profundidade

A NBR 8036 orienta a quantidade mínima de furos pela área da projeção do edifício — em regra, um furo a cada 200 m², com mínimos por porte. Para galpão isso costuma dar:

  • Galpão pequeno (até ~200 m²) — no mínimo 2 furos.
  • Galpão médio (200 a 1.200 m²) — 2 a 3 furos, distribuídos pela planta.
  • Galpão grande (acima de 1.200 m²) — um furo a cada 200 m², espalhados para pegar variação do terreno.

Mais importante que a quantidade é a distribuição: furos espalhados nos extremos e no meio mostram se o solo é uniforme ou se muda de um canto a outro do galpão — o que é comum em terreno de corte e aterro. Sobre a profundidade, a sondagem deve passar da cota prevista de apoio da fundação e atravessar a camada resistente, para confirmar que ela tem espessura e não é só uma lente de solo firme sobre solo mole.

Como o NSPT escolhe o tipo de fundação

Esse é o uso final da sondagem: o perfil de NSPT, junto com a carga dos pilares, define a fundação. A lógica é direta:

  • Solo firme já perto da superfície (NSPT alto a 1–2 m) — sapata rasa. É a fundação mais barata; só vale quando o solo aguenta logo abaixo do pilar.
  • Solo bom só em profundidadeestaca para levar a carga até a camada firme. O tipo de estaca depende do solo e do nível d’água:
  •   • Hélice contínua — terreno com espaço de manobra, produção rápida, sem vibração.
  •   • Raiz — terreno difícil, matacão/rocha, espaço apertado, reforço de fundação.
  •   • Strauss — carga leve a moderada, sem lençol freático alto.
  •   • Escavada — cargas altas e solo coeso que se mantém aberto.

Resumindo: NSPT baixo até fundo manda em estaca; NSPT que cresce cedo libera sapata; o nível d’água e o tipo de solo escolhem qual estaca. Para o panorama completo de escolha, veja o guia de fundação para estrutura metálica.

Erros de quem dispensa a sondagem

  • Copiar a fundação do galpão do vizinho — solo muda de lote para lote, às vezes dentro do mesmo terreno. O que funcionou ao lado pode recalcar no seu.
  • Cravar estaca "no olho" — sem saber onde está a camada firme, ou para curto (recalca) ou para fundo demais (joga dinheiro fora).
  • Fazer sapata sobre aterro mal compactado — sem sondagem ninguém viu o aterro; a sapata afunda meses depois, com o galpão já em uso.
  • Ignorar o nível d’água — escolher um tipo de estaca que não funciona no molhado e descobrir isso com a máquina já na obra.
  • Economizar no ensaio mais barato da obra — a sondagem custa uma fração da fundação. Pular ela para economizar é o melhor jeito de gastar muito mais refazendo.

Leia também

Perguntas frequentes

O que é a sondagem SPT?

É o ensaio padronizado de investigação do subsolo (Standard Penetration Test), regido pela NBR 6484. Abre-se um furo no terreno e, de metro em metro, mede-se a resistência do solo à penetração de um amostrador, cravando-o com um peso de 65 kg que cai de 75 cm. O número de golpes para cravar os 30 cm finais é o índice NSPT, que indica quão firme é o solo em cada profundidade.

O que significa o NSPT?

NSPT é o número de golpes necessários para cravar os últimos 30 cm do amostrador no solo (somando os dois últimos trechos de 15 cm). Quanto maior o número, mais resistente o solo. Em areia ele indica a compacidade (de fofa a muito compacta); em argila indica a consistência (de mole a dura). É o dado principal para escolher e dimensionar a fundação.

Quantos furos de sondagem preciso para um galpão?

Pela NBR 8036, em regra um furo a cada 200 m² de projeção, com mínimo de 2 furos para áreas pequenas. Mais importante que a quantidade é distribuir os furos pelos extremos e pelo meio do terreno, para flagrar se o solo é uniforme ou muda de um canto a outro, algo comum em terreno de corte e aterro.

Dá para fazer a fundação do galpão sem sondagem?

Não é recomendável. Sem sondagem todo o projeto de fundação vira palpite: você não sabe onde está a camada firme, qual o tipo de solo nem onde está o lençol freático. O resultado costuma ser estaca dimensionada errada, sapata sobre aterro mole e recalque com o galpão já em uso. A sondagem é o ensaio mais barato da obra e o que mais economiza ao evitar refação de fundação.